A reunião entre os ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais dos países do Grupo dos 20 (G-20) hoje e amanhã em Paris deverá realçar a divisão de interesses entre o mundo rico em crise avançada e os emergentes, candidatos a potências econômicas.
Preparatória do encontro de cúpula dos chefes de governo do G-20, dias 3 e 4 no balneário francês de Cannes, a reunião já reflete o desespero dos governos europeus com a falta de acordo no interior da união monetária sobre o plano para estancar a hemorragia dos bancos da região mais expostos aos papéis das dívidas soberanas da Grécia insolvente, de Portugal e Irlanda abalados pela falta de crédito, e de Itália e Espanha vitimadas pelas suspeitas sobre a capacidade de crescer em ritmo acima do custeio de seus passivos.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sabe o que vai encontrar. A crise dos bancos europeus, disse ele em Paris, é mais grave do que se supunha há duas semanas, devendo, por isso, deixar para segundo plano a agenda original da reunião. Ela prevê, ou previa, o debate de regras contra o protecionismo, condições da conta de capitais, a acumulação de reserva de divisas, maior controle dos bancos com operações globais e o aumento das contribuições dos emergentes ao Fundo Monetário Internacional, vinculado a mais poder de decisão.
Tais questões serão discutidas neste encontro, mas, se os chefes de governo da Zona do Euro chegarem a algum consenso sobre o plano anticrise, a sua apresentação será o tema principal da cúpula do G-20. Não é certo que isso ocorra conforme a expectativa. E ainda que a cúpula da União Europeia, dia 23, aprove alguma coisa, não é garantido que detenha a fuga dos investidores da área do euro.
"Dizem-nos que este último plano para salvar a Europa de si mesma é de fato um plano, e não só um plano para ter um plano", ironizou o economista canadense David Rosenberg, de muito prestígio em Nova York. Mas "agora cresceu a sensação de déjà vu nos mercados".
Foi o que levou à queda das bolsas na quinta-feira, interrompendo a sequência de altas na semana pela expectativa de algo grandioso — o tal plano, anunciado pelo presidente da Comissão Europeia, que equivale ao conselho de ministros comunitários, o português José Manuel Durão Barroso. O plano remete ao que se tornou urgente: as dificuldades de liquidez dos bancos europeus. As bolsas subiam por isso. Caíram ao se conhecer as condições propostas por Barroso.
A lucidez de Mantega
Os bancos terão de aumentar o capital, e isso quando o mercado de ações está avesso a riscos, sobretudo do setor financeiro. Mas não só: os bancos que fossem socorridos, inicialmente pelo governo de sua jurisdição e eventualmente pelo Banco Central Europeu (BCE) ou pelo fundo de estabilidade (EFSF, em inglês) recém-aprovado com dotação de 440 bilhões de euros, não poderão pagar dividendos aos acionistas e bônus aos executivos. Barroso vocalizou a proposta do governo da Alemanha, repudiada até pelos bancos alemães.
Foi o que levou à queda das bolsas na quinta-feira, interrompendo a sequência de altas na semana pela expectativa de algo grandioso — o tal plano, anunciado pelo presidente da Comissão Europeia, que equivale ao conselho de ministros comunitários, o português José Manuel Durão Barroso. O plano remete ao que se tornou urgente: as dificuldades de liquidez dos bancos europeus. As bolsas subiam por isso. Caíram ao se conhecer as condições propostas por Barroso.
A lucidez de Mantega
Os bancos terão de aumentar o capital, e isso quando o mercado de ações está avesso a riscos, sobretudo do setor financeiro. Mas não só: os bancos que fossem socorridos, inicialmente pelo governo de sua jurisdição e eventualmente pelo Banco Central Europeu (BCE) ou pelo fundo de estabilidade (EFSF, em inglês) recém-aprovado com dotação de 440 bilhões de euros, não poderão pagar dividendos aos acionistas e bônus aos executivos. Barroso vocalizou a proposta do governo da Alemanha, repudiada até pelos bancos alemães.
Com discurso e análise cada vez mais afinados, Mantega matou em cima: "Se todo o prejuízo for imposto aos bancos, poderá criar-se uma nova crise financeira, com consequências mais graves. Acho correto que se imponham perdas aos bancos. Mas os países europeus vão ter de participar [também] da capitalização dos bancos".
União de perturbados
Essa é a questão. Se dois anos atrás, quando o então novo governo de George Papandreou denunciou a maquilagem das contas fiscais da Grécia, a União Europeia tivesse agido com firmeza, a situação não teria se deteriorado a ponto de se estar à beira de uma crise com "dimensões sistêmicas", segundo palavras de Jean-Claude Trichet, o presidente em fim de mandato do BCE. Os papéis da dívida grega, e de outros países do euro, comprados pela banca sob o pressuposto de que seriam tão seguros quanto os da Alemanha, não teriam virado pó, já que a Grécia poderia ter sido resgatada em outros termos. A demora expôs todas as mazelas de uma união monetária artificial.
US$ 2,1 tri em risco
O que a Europa tem de resolver torna supérflua a agenda do G-20, por maior que seja sua importância. Está-se diante, segundo dados do Bank of International Settlements (BIS), o fórum dos maiores bancos centrais, inclusive do Brasil, de valores impressionantes.
Os bancos europeus carregam US$ 2,1 trilhões de euros de títulos soberanos de Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, os tais PIIGS, representando 73% de seus ativos totais. Se 30% desse total fossem riscados do balanço, a banca teria de aumentar o capital em US$ 630 bilhões. Sem apoio de governos, isso não será feito. E aí?
Dizer não sem remorso
No ambiente de empurra-empurra da Europa, como disse Mantega, ele tem mais é que ouvir muito, falar pouco, dizer não sem remorsos e ficar atento ao comportamento da China, o maior cliente de nossas commodities. A economia chinesa dá sinal de perda de fôlego, ainda que pareça cedo falar em pouso forçado, como economistas de bancos com operações na China começam a alertar. E a agenda do G-20?
Melhor deixar para a reunião do FMI em setembro de 2012. Até lá a Europa estará menos senhora de si, sem condição de querer brecar o uso de controles de capitais pelos países emergentes ou pressioná-los a escancarar seus mercados aos produtos europeus em troca de miçangas. O vento mudou de lado. Mas Mantega tem de ficar esperto.
Fonte: Correio Braziliense - 14 Out 2011
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